
O paciente que senta na cadeira do dentista traz junto o histórico de saúde inteiro: o remédio que toma todo dia, a doença crônica em acompanhamento, a gestação em curso, a cirurgia marcada. Por isso, a integração entre médico e dentista não é detalhe burocrático, é parte da segurança do tratamento. Às vésperas de 18 de outubro, Dia do Médico, vale olhar para as situações em que as duas áreas mais se cruzam e para o que torna essa troca eficiente.
A relação entre diabetes e doença periodontal é uma das mais estudadas na interface entre as duas profissões. Pessoas com diabetes mal controlado têm mais risco de inflamação gengival e perda do suporte ósseo dos dentes, e a inflamação periodontal, por sua vez, pode dificultar o controle da glicemia.
Na prática, isso significa que o dentista precisa saber como está o controle glicêmico do paciente antes de procedimentos cirúrgicos, e que o médico se beneficia ao saber que há uma infecção periodontal em tratamento. Quando os dois conversam, o paciente ganha nas duas frentes.
A gestante pode e deve manter os cuidados odontológicos. As alterações hormonais do período favorecem a inflamação da gengiva, e o pré-natal odontológico faz parte das recomendações de saúde pública no país. O trimestre mais indicado para procedimentos eletivos, o uso de anestésicos, a necessidade de radiografias e a prescrição de medicamentos são decisões que ficam mais seguras quando dentista e obstetra compartilham informações.
Pacientes com algumas condições cardíacas específicas podem ter indicação de antibiótico antes de determinados procedimentos odontológicos, conforme as diretrizes de cardiologia. Essa decisão depende do diagnóstico preciso, que o cardiologista conhece melhor do que ninguém.
O uso de anticoagulantes e antiagregantes plaquetários é outra situação frequente. A suspensão desses medicamentos por conta própria, para evitar sangramento numa extração, pode colocar o paciente em risco de trombose ou evento cardiovascular. O caminho seguro é o dentista informar o procedimento previsto, o médico avaliar o risco e, na maioria dos casos, o tratamento ser feito com medidas locais de controle do sangramento, sem interrupção do remédio.
Pacientes que vão passar por radioterapia de cabeça e pescoço ou por quimioterapia se beneficiam muito de uma avaliação odontológica antes do início do tratamento. Focos de infecção, dentes sem condições de recuperação e próteses que machucam devem ser resolvidos antes, porque durante e depois da terapia a cicatrização fica mais difícil.
Durante o tratamento, o dentista ajuda a manejar efeitos como a mucosite, a boca seca e o risco aumentado de cáries. O uso de alguns medicamentos para os ossos, comuns em tratamentos oncológicos e na osteoporose, também exige atenção antes de extrações e cirurgias, pelo risco de complicações na cicatrização óssea.
A lista de pontos de contato é longa. Entre os exemplos comuns:
A integração depende de processos simples, e não só de boa vontade. A anamnese detalhada, atualizada a cada consulta, é o primeiro passo: medicamentos em uso, doenças diagnosticadas, alergias, cirurgias recentes. Quando surge uma dúvida, o dentista pode solicitar uma avaliação ou um parecer do médico responsável, por escrito, descrevendo o procedimento planejado.
Registrar essas trocas no prontuário protege o paciente e os profissionais. E o paciente tem papel central: levar a lista de medicamentos às consultas e informar cada profissional sobre o que o outro recomendou evita decisões tomadas com informação incompleta.
Preciso avisar o dentista sobre todos os remédios que uso? Sim. Anticoagulantes, medicamentos para pressão, diabetes, osteoporose e tratamentos oncológicos, entre outros, podem influenciar a escolha de anestésicos, a indicação de procedimentos e o cuidado com a cicatrização.
Posso parar o anticoagulante antes de extrair um dente? Não por conta própria. A decisão deve ser tomada pelo médico que prescreveu o medicamento, em conjunto com o dentista, e na maioria dos casos o procedimento é feito sem interrupção.
Gestante pode ir ao dentista? Pode e deve. O acompanhamento odontológico faz parte do pré-natal, e o dentista ajusta o planejamento de procedimentos, radiografias e medicamentos ao período da gestação.